Gianni Infantino, presidente da Fifa. Foto: Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
O futebol mundial vive um dos momentos mais tensos de sua governança recente. A Fifa confirmou nesta semana um plano para criar uma subsidiária comercial batizada de Fifa Forward Enterprise (FFE), avaliada em cerca de US$ 20 bilhões, com a intenção de vender fatias minoritárias a investidores privados — entre eles nomes ligados à família Kushner, próxima ao presidente americano Donald Trump. A proposta, revelada primeiro pelo The Times de Londres, já provocou uma reação dura da Uefa e reacendeu um debate antigo: até onde vai a mercantilização do esporte mais popular do planeta?
O que prevê o plano
Segundo informações publicadas por veículos como CNN Brasil e Exame, a nova empresa concentraria a exploração comercial dos principais torneios da entidade — Copa do Mundo masculina, Copa do Mundo feminina, Mundial de Clubes e competições de categorias de base. A Fifa manteria o controle majoritário, enquanto investidores externos comprariam entre 20% e 30% do capital inicialmente. As 211 federações-membro receberiam, cada uma, uma fatia estimada em US$ 20 milhões, que poderiam manter como investimento ou vender para gerar caixa imediato.
Um dos pontos que mais chamou atenção nas reportagens foi a possibilidade de Gianni Infantino assumir, após o fim de seu mandato em 2031, o cargo de "comissionário" ou diretor-executivo da FFE, com remuneração estimada próxima à do comissário da NFL, Roger Goodell — hoje na casa dos US$ 64 milhões anuais, cerca de dez vezes o salário atual do dirigente suíço-italiano. A Fifa negou oficialmente que esse papel já tenha sido discutido internamente.
A reação da Uefa e do futebol europeu
.jpg)
Infantino em compromisso institucional. Foto: Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)
A resposta da Uefa foi imediata e dura. Em comunicado citado pela Euronews, a entidade europeia afirmou que a alma e a governança do futebol não são ativos negociáveis, especialmente diante da falta de transparência sobre quem lucraria com a operação. A federação inglesa e a Concacaf também manifestaram preocupação pública com os rumos do projeto.
Apesar da pressão das principais potências do futebol mundial, o desfecho está longe de garantido em qualquer direção. Qualquer mudança estatutária precisa da aprovação da maioria das 211 associações membro da Fifa, cada uma com direito a um voto — o que dá às federações menores, muitas delas dependentes financeiramente da entidade, um peso proporcionalmente maior do que o de países tradicionalmente dominantes no esporte.
Por que isso importa
O episódio expõe uma tensão estrutural que acompanha o futebol há décadas: a convergência entre um esporte de participação popular e um negócio bilionário movido por patrocínios, direitos de transmissão e, agora, capital privado. Camisas com publicidade, estádios com nomes de bancos e companhias aéreas e ingressos cada vez mais caros já eram parte da paisagem do futebol contemporâneo. A novidade é a entrada direta de fundos de investimento na propriedade dos próprios torneios que definem a identidade esportiva de nações inteiras.
Resta saber se as federações menores, atraídas pela promessa de recursos imediatos, terão votos suficientes para aprovar o plano até o prazo estipulado por Infantino, em setembro, mesmo diante da resistência das principais confederações europeias.
Tags: Fifa, Copa do Mundo, Gianni Infantino, Uefa, futebol, mercado esportivo, investimento privado, Fifa Forward Enterprise